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Se tem um elemento que é detestado pelos designers é o micreiro, aquele vilão que surge para roubar o seu cliente e denegrir nossa profissão. Porém estou disposto a provar que esse ódio antigo não faz nenhum sentido. Duvida? Então continue lendo esse artigo.

Se você ainda não sabe o que é um micreiro eu explico, basicamente são aqueles que dizem que são designers mas que não obtiveram nenhum tipo de formação acadêmica ou mesmo profissional e que utilizam em seus “projetos“ apenas seus conhecimentos em softwares de edição gráfica como photoshop por exemplo.

Os micreiros costumam ter pouca ou nenhuma noção de projeto gráfico fazendo na grande maioria das vezes apenas plágios de outros projetos ou simplesmente utilizando péssimas fontes de referências para seus trabalhos o que acaba refletindo em peças de qualidade comum ou duvidosa e, o pior de tudo, com um preço baixíssimo em relação a um profissional.

Esses e outros fatores acabam fazendo do micreiro um dos principais inimigos do designer gráfico já que muitas vezes os clientes acabam acreditando que o trabalho feito por um micreiro é o mesmo feito por um designer formado com a única diferença de que o designer gráfico cobra muito mais caro afinal de contas ele estudou para chegar onde está e não apenas aprendeu a usar um software.

Two seagulls fighting for food

Na grande maioria dos blogs de design que já visitei existem vários artigos falando sobre a grande rivalidade que existe entre designers e micreiros. Espera aí, rivalidade? Existe mesmo rivalidade entre designers e micreiros?

Refletindo sobre isso eu percebi que essa questão não pode ser tratada como rivalidade uma vez que ela é unilateral, ou seja, é de apenas de uma das partes envolvidas, ou você já viu algum blog de micreiro falando mal de designer?

Gostaria de compartilhar um fato que aconteceu comigo e que me ajudou a pensar melhor sobre a questão de os micreiros serem ou não vilões no universo do design.

Certa vez, eu estava na faculdade tendo uma das minhas primeiras aulas no curso, era a aula de Comunicação Oral, na primeira aula os alunos tinham que, um de cada vez, ficar de frente para os outros alunos e contar um pouco da sua história e dizer porque escolheram o curso de Design Gráfico.

Escutei atentamente a cada uma das histórias dos meus colegas e percebi que embora cada um tivesse características próprias e viessem de ambientes distintos existiam pontos que se assemelhavam em suas histórias de vida.

Um dos pontos semelhantes era de que todos eles, sem exceção, em algum momento de sua vida buscaram expressar de alguma forma a sua aptidão para o design gráfico. Alguns começaram a desenhar, outros aprenderam a usar os softwares de edição de imagem através de tutoriais na internet, outros fizeram cursos de maquete eletrônica etc.

Porém o ponto que mais me chamou a atenção foi que a grande maioria deles já haviam realizado alguns trabalhos gráficos antes mesmo de entrarem na faculdade, alguns até mesmo citaram os valores irrisórios que cobraram para criar artes para cartões de visita, folders e até mesmo websites.

Isso apenas confirmou algo que eu já desconfiava a algum tempo, o fato de que todo designer gráfico ou estudante de design já foi micreiro algum dia.

Students in class

E é justamente por isso que defendo que não há nada que justifique o ódio dos designers pelos micreiros uma vez que já pertencemos a esse grupo tão descriminado e portanto deveríamos entender o porque de eles serem como são e fazerem o que fazem.

O que me deixa mais furioso com essa discriminação sem sentido é que muitas vezes ela não se origina pelo fato de você ter perdido um cliente para um micreiro e sim porque todos os designers odeiam e muitos acabam seguindo pelo mesmo caminho sem nem sequer saber porque odiar um micreiro.

Sinto a mesma coisa quando vejo estudantes criticando a Comic sans e idolatrando a Helvética sem nem saber quais as características que tornam a Helvética uma excelente fonte, simplesmente sai falando e criticando para seguir a maioria.

Antes de odiarmos os micreiros existem algumas questões sobre eles que devem ser cuidadosamente observadas, são as seguintes:

O micreiro não escolhe ser micreiro

A grande maioria dos micreiros não escolheu ser micreiro, como já vimos antes eles são aspirantes a futuros profissionais e que por algum motivo ainda não estão no ambiente acadêmico. Muitos deles já possuem alguma habilidade relacionada ao design que lhe permite ganhar algum dinheiro, seja desenhando ou criando um layout no photoshop.

Ora sejamos sinceros, se você não fosse designer mas soubesse utilizar o photoshop pelo menos de forma razoável e alguém te oferecesse R$ 50,00 para você criar um cartão de visitas você iria dizer o que? “Não, muito obrigado mas existe um profissional capacitado e autorizado para realizar esse tipo de atividade, recomendo que o senhor procure um designer gráfico com formação acadêmica”. Sim e que vai te cobrar 10 vezes esse valor.

É claro que não, nós também aceitaríamos fazer esse tipo de trabalho assim como muitos de nós já fizemos antes de entrarmos na faculdade e aprender sobre projeto e teoria do design. É hipocrisia dizer que não aceitaríamos o trabalho.

O micreiro não quer ser micreiro

Pergunta pra um micreiro se ele gostaria de fazer um curso de design gráfico, a resposta é óbvio que é “sim“, ninguém quer ser apenas um mero quebra galho dentro de uma profissão. Se tem uma coisa que os micreiros tem em comum com os estudantes de design é que eles também tem um grande desejo de aprender sobre design.

Muitos desses micreiros estão constantemente buscando aprender mais sobre design, seja em blogs, fóruns ou estudando com tutoriais na internet, todos eles querem aprender e gostariam de ser um designer formado com diploma e tudo “como manda o figurino”.

Outra coisa importante que não podemos esquecer é que alguns desses micreiros não estudam design gráfico graças a fatores sociais, alguns não tem condição financeira de pagar uma universidade, outros nem sequer tem uma universidade em sua cidade que tenha o curso de design.

Claro que isso não justifica a micreiragem porém nos ajuda a entender porque isso acontece e porque alguns são levados a participar dessa prática.

Se o micreiro é seu concorrente a culpa é sua

Isso é a mais pura verdade, se o seu trabalho pode ser facilmente comparado ao trabalho realizado por um micreiro não é porque o trabalho dele está muito bom mas sim porque o seu trabalho está deixando muito a desejar.

Hoje em dia a melhor maneira de trabalhar com design é focalizando a sua área de atuação ou seja oferecer um serviço único, específico e menos genérico, isso ajuda a fazer com que seus clientes te procurem para ter um trabalho específico e que eles sabem que somente pode ser realizado por um profissional da área.

Vou dar um exemplo prático a respeito disso, existe uma equipe de profissionais que admiro muito chamados Criatipos, eles realizam trabalhos de design gráfico unicamente utilizando tipografias. Um dos tipos de trabalhos que eles fazem e que eu mais admiro são os quadros utilizando giz.

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Utilizei esse trabalho como exemplo pois ele mostra claramente que é um trabalho que foi feito por profissionais, também por ser um trabalho bem específico deles, repare que no portfólio deles dá pra perceber que eles já fizeram outros trabalhos seguindo essa mesma linha de quadro de giz.

Isso deixa bem claro que o cliente deles os procurou pois queria exatamente aquele tipo de trabalho e com aquela qualidade e claro que estava disposto a pagar por um serviço de qualidade e personalizado.

É exatamente esse nível profissional que devemos buscar alcançar, ou seja, fazer com que nosso cliente venha até nós procurando aquele tipo de serviço e que em nosso trabalho seja possível perceber que foi feito por um profissional do design e não por um micreiro.

É muito mais fácil mudar a qualidade do nosso próprio trabalho do que procurar mudar o trabalho dos micreiros ou mesmo acreditar que medidas burocráticas vão extinguir a prática da micreiragem. Ou você acha que a criação de um Conselho vai impedir essa prática?

Dito isto eu afirmo que não há um motivo coerente para odiarmos os micreiros, eles são uma classe dentro do ramo criativo e que acabam se tornando opção para muitos clientes. Podemos Muito bem sobreviver a isso simplesmente evoluindo o nosso trabalho.

Não pensem que estou aqui para defender a prática da micreiragem mas sim para tentar ajudar meus colegas designers a enxergarem esse problema de um outro ponto a fim de podermos buscar novas soluções para esse problema relacionado ao nosso mercado de trabalho.

Deixem que eles participem de nossos fóruns e até mesmo que aprendam com os blogs e sites espalhados pela web afinal de contas o conhecimento deve ser compartilhado, vamos mudar de assunto e começar a falar mais sobre projeto ao invés de elaborar piadinhas de micreiros.

Espero que tenham gostado do artigo, gostaria de saber suas opiniões, concordam? Discordam? Então compartilhem com a gente aí nos comentários. Um abraço e até o próximo post.

Imagens via Corbis e Behance